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O desempenho na infância

A exigência por desempenho na infância tem causado dificuldade a muitas crianças e adolescentes.

Tal exigência, sabemos, muitas vezes é explícita dentro da família: notas na escola, comportamento, esportes, em todas as atividades nas quais cabe alguma comparação ou avaliação de mérito.

Nestes casos, fica mais claro quando um menino ou uma menina começa a demonstrar desconforto, choro constante, ou mesmo apatia e desistência de alguma atividade. Em famílias que conseguem perceber tal situação, é possível repensar o arranjo e os valores envolvidos na questão.

Noutros casos, no entanto, tal exigência por desempenho não é verbalizada e, muitas vezes, os pais dizem justamente o oposto: que não estão cobrando nada demais, que o que importa é cumprir as obrigações elementares e, no mais das vezes, aprender e se divertir. Ainda assim, mesmo nestes quadros, a criança segue dando sinais de alto nível de exigência consigo própria. O que acontece?

As crianças não são bobas. Elas leem o mundo rápido e muito fácil, na busca por salvar a pele e conquistar um lugar no meio social (entre amigos da escola, grupos extra escolares, família). Quando apresentam irritabilidade, nervos à flor da pele, baixa resistência à frustração ou derrotas, algo está acontecendo.

Vira um grande mistério nas famílias em que o incentivo é justo o oposto, o da participação e diversão.

Entram aí dois pontos: o inconsciente e a cultura.

Dizer para uma criança que o importante não é vencer, quando a família é visivelmente preocupada com isso no cotidiano (trabalho dos pais por exemplo, exigência dos pais consigo mesmos), isso se afigura um valor muito maior do que palavras de incentivo.

Além disso, imersos na cultura de resultado e desempenho em que vivemos (e tento não atribuir aqui um juízo de valor, mas uma constatação), palavras em contrário voam ao vento diante daquilo que a criança sabe que importa de verdade, nas cabeças, corações e comportamento das pessoas à sua volta.

Recorrendo ao vocabulário da psicanálise, é legítimo pensar num Ideal do Eu insuportável, que permeia famílias e modos de se relacionar presentes no cotidiano infantil.

Alguns resultados disso, além dos sintomas que as próprias crianças e adolescentes têm apresentado (e chegam ao ouvido dos professores), são: a busca por ‘avançar’ sempre na direção de turmas mais velhas, ou mais adiantadas ao menor sinal de bom desempenho; a percepção equivocada segundo a qual, se já existe certa destreza, deve-se obrigatoriamente avançar no nível de aprendizagem e exigência; a diminuição do tempo de fruir alguma atividade no aspecto lúdico; a impossibilidade de sentir-se confortável.

Estou tentando dizer que parece haver a busca por um ideal de criança que tem dificultado o amadurecimento da infância.

Muitas crianças, inclusive, apresentam um desenvolvimento cognitivo e/ou motor bastante avançado – com uma plasticidade emocional que não condiz. Quando isso acontece, podemos dizer, como o psicanalista inglês Donald Winnicott, que a pessoa não amadureceu ‘de dentro para fora’, mas que fez uma casca, estando ‘mole’ por dentro.

Noutros casos ainda, uma criança ávida por reconhecimento pode recorrer inconscientemente à ‘fuga para a inteligência’, no afã de conquistar algum lugar de destaque, um olhar adulto; nestes casos, é visível a pobreza motora, e/ou afetiva e social, dado que não houve a possibilidade do dito amadurecimento. Mas ela se mostra inteligentíssima em algum aspecto específico.

No fundo de todas estas questões que busquei colocar, comparece a matéria-prima da vida: o tempo. De estar juntos, de relaxar, de poder não cumprir alguma coisa. De crescer.

Sem tempo, não há infância.

Fiquemos atentos.

Aquele abraço, saudações esportivas

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