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Resignados

Invariavelmente, quando me deparo nestes tempos com uma criança de máscara – e vejo cada vez mais crianças bem pequenas usando – percebo uma ponta de angústia em mim que dispara a pergunta: “como é ser criança de máscara?”.

Porque nós, adultos, não sabemos nem jamais saberemos o que é isso, como é viver essa infância. Já não vivemos assim em nosso tempo de criança. Fico então no registro do impossível, e só me resta observar e escutá-las.

A capacidade humana em adaptar-se é o que, efetivamente, nos fez atravessar a seleção natural da História. Elas se adaptam, mas é legítimo perguntarmo-nos a que custo.

A máscara, claro, não é o problema em si (é uma solução na verdade), mas termina por condensar uma representação da experiência brutal que temos vivido.

As interrupções, de movimento e convivência a que temos sido submetidos (o corpo, suas possibilidades e socialização reduzidas), impactam cada família de acordo com a situação material, afetiva e social, particular e de cada nicho.

No entanto, algo soa comum: creio que seja o olhar.

O nível de resignação e disciplina a que eles têm se submetido para atravessar a pandemia, não acredito que nenhum adulto vivente tenha a capacidade de imaginar ou dimensionar – pelo simples fato de não termos essa marca.

Talvez seja esse olhar, resignado de maneira tão precoce, que dispare a angústia que sinto quando observo estes pequenos rostos mascarados. Uma liberdade contida e represada, que não combina com o sentimento de infância.

No registro do impossível em que me encontro, assim, busco toda a solidariedade do mundo para que essa resignação, que eles sabiamente adotam, não se transforme em desesperança.

Creio que esse é um de nossos grandes desafios.

Boa Páscoa e muita solidariedade pra nós,

Saudações esportivas

This Post Has 9 Comments

  1. Oi Rodrigo,
    Mais um lindo texto seu! Profundo, e que nos faz refletir sobre tudo o que estamos vivendo.
    Também tenho refletido à respeito disso tudo. Não exatamente nas máscaras, mas todo esse “mundo” de privações tem constantemente me recordado meu pai, que, nascido em 1933, tinha quase a mesma idade de meus filhos (Joaquim e Helena) quando estourou a 2ª guerra mundial.

    Se por um lado foram anos difíceis, a dificuldade da guerra fez de meu pai uma pessoa que jamais se seduziu pelo consumo, tinha uma visão mais “consciente” do consumo, do desperdício, e da vida e das coisas que realmente são importantes.

    Prefiro achar que, além do inegável sofrimento, esta experiência pode ser muito valiosa para forjar uma geração menos fútil, e que dê mais valor ao afeto, às relações humanas e à vida.
    Grande abraço

  2. Que lindo, rodrigo!
    Seguimos fortes, resistindo!
    Boa pascoa pra vcs tb!
    Vacina chegando… 🙏🏻
    Vi q os profs de educacao fisica ja poderao tomar em abril.
    Bj grande!

  3. Belo insight, Rodrigo.
    É mesmo algo que não temos como dimensionar.
    Só o futuro nos trará a resposta.
    Acho que não devemos encarar com naturalidade o uso de máscaras e, para que eles não fiquem desesperançosos, devemos lembra-los sempre que isso vai passar e eles poderão voltar a ser as crianças que merecem ser, sem medo e sorrindo para que todos possam ver.
    Grande abraço,
    Klaus

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