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Sobre o trabalho do luto

Caros amigos e amigas,

Diante do choque da terrível tragédia desta última terça-feira, e por ter uma pessoa muito querida envolvida, me ocorreu que talvez pudesse escrever alguma coisa diante da tristeza e da sensação de absurdo, de falta de sentido que nos toma. Após conversar com alguns pais, resolvi elaborar um pequeno texto sobre o trabalho do luto.
Do ponto de vista psíquico, o luto é uma dolorosa retirada do quantum de afeto que nos unia à pessoa amada. Trata-se de um processo psíquico humano, natural, que não acontece somente a partir do falecimento de um ente querido; mas também em muitas outras separações (familiares, amorosas etc). A morte seria, assim, a separação humana em última instância.
O trabalho do luto é acionado para que possamos viver a dor e chorar a tristeza de nos despedirmos daqueles que amamos. O luto em si é este processo de desligamento ao qual me referi, justamente para que, após isso, a vida possa prosseguir. Numa situação trágica, a intensidade dos acontecimentos pega o aparelho psíquico desprevenido, e o luto se dá com uma maior dificuldade de aceitação. Muitas pessoas podem entrar em estado de choque e precisar de amparo acima do normal, inclusive médico.
Muitas vezes as pessoas entram, inconscientemente, em estado de negação nestas situações. Ou, ainda, utilizam mecanismos de defesas psíquicas – inconscientes – de modo a não enfrentar a dor da perda (quando a pessoa se vê impedida de chorar, ou de sensibilizar-se). Nestes casos, normalmente, a dor acompanha o sujeito por tempo indefinido, já que a elaboração da perda do ente querido foi impedida. É quando se dá o que chamamos de ‘fantasmas’, no sentido de que aquele que ficou não deixa o outro partir em seu imaginário. Conheço inúmeros casos de pessoas que só puderam chorar a morte de alguém muitos anos depois (muitas vezes com ajuda de análise ou outra terapia), pois a própria família negava o direito de chorar, com frases do tipo “ele quer que você se lembre só das coisas boas” – e outras negações.
Com relação à questão religiosa, o luto é livre: ateus, espíritas, umbandistas, católicos, budistas, agnósticos, muçulmanos, judeus e o que mais existir, em sendo humano, está apto ao trabalho do luto. A necessidade do amparo encontra, para cada pessoa, as ferramentas com que ele ou ela utiliza para explicar o mundo e o fenômeno humano, na busca por sentido que todos nós, queiramos ou não, fazemos para continuar vivendo. Quem não encontra sentido algum, adoece severamente.
No caso das crianças, o que tenho percebido é que a melhor maneira de explicar a morte é aquela com a qual os pais ou responsáveis se identificam. A criança aceita de bom grado estas explicações, normalmente entristece junto, e aí começa o trabalho de luto dela com amparo do adulto, o que é muito importante. Se o pai tem algum religião que explica a morte e os espíritos de uma determinada maneira, é fundamental que compartilhe isto com a criança, de modo que alguma coisa faça sentido para ela. Se for ateu, a explicação dos fenômenos naturais é igualmente necessária, com o mesmo cuidado que os religiosos utilizam para escolher as palavras – sem jamais negar o fato ocorrido.
Por fim, desejo ressaltar que o trabalho do luto não é somente o da perda: a partir de um certo momento em que vamos podendo aceitar essa despedida, a pessoa continua em nós, mas no melhor lugar que pode nos habitar: em nossos corações. Após viver e elaborar as tristezas mais profundas, as melhores lembranças serão as que, efetiva e legitimamente, nos habitarão.
Fiquemos juntos.
Obrigado por tudo, Vitu.
This Post Has 8 Comments
  1. Lindas palavras , um momento muito triste , sem palavras para descrever . Meus sentimentos aos familiares e amigos. Uma tragédia que mexeu com todos nós.
    Conte com nosso apoio.

    Abraço Andrea e família . ( Pedro Brotas )

  2. Rodrigo, seu texto foi do tamanho certo, palavras escolhidas com carinho, e apesar de voce escrever sobre o luto, escreveu sobre o amor que se guarda no coração pelo próximo, pelo amigo. Meus sentimentos e um abraço de coração. Bia Charnaux e família.

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