

A grande derrota
O caso se repetiu algumas vezes, num período recente: meninos bons de bola, acostumados a competir, que sem motivo aparente não iriam participar da competição mais importante do ano.
O professor estranhou, conversou com os familiares, nada. Resolveu conversar novamente com tais meninos – e algo de novo surgiu.
Sem saber o caso uns dos outros, relembraram dificuldades em competições anteriores e apontaram as derrotas como motivo para a desmotivação no ano corrente.
Coube ao professor, com o coração partido, relembrar junto a eles o motivo último de competirem: é porque gostam muito de jogar futebol.
Ao contrário, quando a lógica do resultado (a exigência de vitória) toma um lugar muito grande, ele barra o prazer de jogar. E é isso o que vem acontecendo com muitas crianças e adolescentes.
Já descontado o peso subjetivo de cada um – no sentido de sentir-se desmotivado por derrotas anteriores – era legítimo pensar no porquê de tais desistências relacionadas a resultados. Não foi difícil.
O futebol brasileiro tem sido praticado, há décadas, em ambientes hostis em todas as categorias. Qualquer um que acompanha nossas partidas profissionais assiste, reiteradamente: puxões, empurrões, gritaria, violência explícita, pressão e toda sorte de falseamento para ludibriar a arbitragem.
O jogo fica sonegado. A qualidade passou a não importar.
Tudo isso é parte do pacote do resultado a qualquer custo; resultado que, se é fundamental para a valoração individual e coletiva (o mérito passa necessariamente por ele), acaba matando o cultivo do bom futebol que começa nas categorias de base e nas escolinhas – bom futebol que repousa no prazer de jogar.
Assim, em tais ambientes, crianças e adolescentes imersos nessa cultura passam a funcionar na lógica resultadista, quebrando as lógicas anteriores do prazer e da aprendizagem.
Nessa mesma esteira, passou-se a admirar os ‘times de guerreiros’, uma rematada bobagem que faz da valentia e da garra – aspectos essenciais ao bom futebol – uma qualidade suprema, quase como quem diz: “vamos ganhar sem jogar futebol”.
Crianças como sintoma: o professor não conseguiu recuperar os alunos desistentes.
E sabe que não há derrota maior do que essa.
Aquele abraço, saudações esportivas
