

Alimentação infantojuvenil
Temos visto alguns padrões de alimentação se repetindo entre as crianças e adolescentes que praticam esporte – e vale a pena refletir sobre isso.
Água trocada por repositor eletrolítico; café da manhã substituído por whey; crianças treinando em jejum, pulando o lanche; tomando suplemento antes de ter aprendido a comer de verdade; chegando ao treino com uma barrinha industrializada no lugar de uma refeição.
Não são casos isolados. Estão virando rotina.
O que chama a atenção não é apenas o alimento em si, mas o que esse padrão diz: existe uma transferência quase invisível do comportamento alimentar adulto para crianças que ainda estão em pleno desenvolvimento.
É comum, nos dias atuais, o adulto comer com pressa e mal, por conta de sobrecargas cotidianas – e tentar resolver isso com a ideia da ‘praticidade’. Produtos hiperproteicos, ultraprocessados, fáceis de engolir no caminho.
Essa lógica chega até a criança não por desamor, mas pela pressão do tempo. E é difícil pensar diferente quando a rotina aperta.
Só que criança não é um adulto em miniatura, nos lembra o clichê.
Fisiologicamente e em seu comportamento, a infância tem demandas próprias que uma dieta construída em cima da conveniência adulta não atende. E mais do que isso: a relação que a criança constrói com a comida nessa fase não é ‘neutra’. Ela molda preferências e, principalmente, o significado que o alimento vai carregar pelo resto da vida.
Comer junto. Comer com calma. Saber reconhecer fome e saciedade. Experimentar sabores de verdade. Nada disso é romantismo, significa desenvolvimento e amadurecimento. E costuma aparecer nos detalhes mais simples: num picolé depois do treino, enquanto a criança ainda conta animada o que aconteceu na aula.
Esses momentos não são pausas na rotina – deveriam fazer parte dela.
Quando esse processo é sistematicamente trocado por soluções rápidas há um custo real: nutricional e comportamental. A criança aprende cedo demais que comida é um problema a resolver, e não uma experiência a viver.
A questão, no fundo, não é só o que a criança está comendo.
É o que ela está deixando de perceber e viver enquanto come.
Fiquemos atentos,
aquele abraço, saudações esportivas
(por Tiago Rigaud – professor de educação física, nutricionista e coordenador do Projeto Chutebol)
