

Amor à camisa
São bem-vindos os comentários recentes a respeito da idealização que se faz da Seleção Brasileira de futebol.
A maior campeã de futebol da história mundial é figura central no imaginário do país – com efeitos positivos e outros nem tanto.
O sentimento de superioridade alcançado por conta das cinco conquistas em copas do mundo mergulha a torcida, no mais das vezes, numa onipotência infantil.
Como se, pela história gloriosa da seleção, o Brasil fosse o merecedor natural das vitórias e, neste sentido, qualquer resultado contrário incorresse em algo antinatural. Como se os adversários não pudessem ser mais competentes, terem gerações melhores ou que a sorte os bafejasse.
No entanto a grandeza da seleção, antes de virar a onipotência à qual estou me referindo também empurra à vitória; as conquistas e a tradição levam a uma responsabilidade e cobrança natural de quem veste a camisa amarela.
Pode-se evocar uma situação paradoxal: a mesma grandeza impõe uma exigência de vitória mas, quando se descola da realidade (a de que existem outras potências no futebol), apresenta o traço infantilizado: a derrota é inadmissível.
Dito de outro modo, quando a realidade não confirma nossas expectativas idealizadas, o mais comum é a evocação de uma volta ao passado; de uma negação de qualquer qualidade que a seleção atual possa apresentar; uma impossibilidade de apostar em trabalhos de prazo mais longo, que acolham oscilações de desempenho; no limite, de negar a grandeza brasileira no futebol, como se um insucesso fosse algo irrecuperável.
Lembra o drama de um grande amor não correspondido, uma promessa não entregue, um queixume diante de uma grandeza inalcançável.
Ao contrário, viver a grandeza da seleção sem cair na idealização faria bem a nós, como torcedores.
Poder sustentar nosso passado glorioso nos arriscando a cada vez, pondo à prova nosso futebol e exigindo respeito à camisa – deixando de lado, no entanto, a onipotência que não vislumbra derrotas e fracassos como possibilidades da vida real.
É entrar em contato com a angústia de não saber o resultado, de não controlá-lo em nosso imaginário.
Não saber o resultado é, justamente, o que dá graça ao jogo.
É arriscar-se ao amor.
Vamos, Brasil!!
