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Outra do Manoel

Prezados (as),
É com alegria (mas não menos saudades) que lembramos dessa aqui de nosso padrinho Manoel de Barros – o poeta das memórias inventadas. Acho que ele nunca soube que era nosso padrinho, mas não tem problema, porque isso a gente inventou também – invenção da qual sentimos muito orgulho, posso dizer.
Daí que, em suas memórias, ao nos remeter à criança que há em nós, Manoel restaura uma sensação de acalento – que talvez seja a própria qualidade afetiva da poesia, perdida (ou sufocada) no pragmatismo nosso de cada dia. Porque, se é verdade que o pragmatismo é necessário, isso lá nem é preciso lembrar. Ao menos para a maioria de nós, já que o mundo precisa, digamos, funcionar. Disso a vida se encarrega na maioria dos casos.
Já a poesia, essa dá um alívio quando chega, ou quando podemos lembrar que ela existe. Ou, simplesmente, quando conseguimos parar para sentir as coisas, estas que estão por debaixo da poeira do dia a dia e, como diz o poeta, são a fonte daquilo que realmente importa. 
Tenho percebido que muitas das questões que a infância e a adolescência atuais nos convocam a responder demandam do adulto que ele consiga parar por um instante e se lembrar de sua própria infância. “Como eu me sentia mesmo, hein?!”. Nada melhor, então, que a poesia do Manoel. Boa leitura!
Fontes

Três personagens me ajudaram a compor estas memórias. Quero dar ciência delas. Uma, a criança; dois, os passarinhos; três, os andarilhos. A criança me deu a semente da palavra. Os passarinhos me deram desprendimento das coisas da terra. E os andarilhos, a preciência da natureza de Deus.

Quero falar primeiro dos andarilhos, do uso em primeiro lugar que eles faziam da ignorância. Sempre eles sabiam tudo sobre o nada. E ainda multiplicavam o nada por zero – o que lhes dava uma linguagem de chão. Para nunca saber onde chegavam. E para chegar sempre de surpresa. Eles não afundavam estradas, mas inventavam caminhos. 

Essa a pré-ciência que sempre vi nos andarilhos. Eles me ensinaram a amar a natureza. Bem que eu pude prever que os que fogem da natureza um dia voltam para ela.

Aprendi com os passarinhos a liberdade. Eles dominam o mais leve sem precisar ter motor nas costas. E são livres para pousar em qualquer tempo nos lírios ou nas pedras – em se machucarem. E aprendi com eles ser disponível e sonhar.

O outro parceiro de sempre foi a criança que me escreve. 

Os pássaros, os andarilhos e a criança em mim são meus colaboradores destas Memórias inventadas e doadores de suas fontes.

[Manoel de Barros – ‘Memórias Inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros‘, 2008]

This Post Has 6 Comments
  1. Maravilha, Rodrigo. Realmente, sem poesia só se pode fazer nada. Quer dizer: Quem faz o que faz sem poesia, está fadado a ser um NADA.
    Abração e muito obrigado.

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