Sobre crescer

Por Rodrigo Tupinamba Carvao
em 10/09/2025 |
Categorias: ChutebolFutsal

A turma, meninos de 12 a 14 anos em média, estava curtindo o tempo livre, a parte inicial da aula em que não há direcionamento. É uma espécie de aquecimento em que os próprios alunos se organizam – e cabe aos professores uma atenção flutuante, intervindo diretamente apenas quando necessário.

Resolver pequenos conflitos ao alcance da idade é extremamente importante, é pedagógico e se aprende ali.

O ‘jogão’ que estavam fazendo parecia, no entanto, mais barulhento. O professor notou certo desconforto de alguns alunos. Uma agressividade acima do tom começou a surgir. O professor interveio, pediu que jogassem numa boa.

Uma, duas, três vezes. Nada. O ambiente ficou hostil e desagradável – o professor não hesitou: “Em duplas, correndo em volta da quadra”. Um imperativo.

Entre o alívio de uns, o espanto de outros (diante do incomum) e talvez a raiva de terceiros, lá foram eles. Após a corrida, uma atividade semi-diretiva, ainda não um treino propriamente dito, mas uma organização do aquecimento: “Dois grupos, cada um de um lado da quadra, reinventando um jogo de aquecimento”.

Em instantes, todo mundo envolvido, decibéis abaixo, um ambiente legal para jogar e recomeçar.

Afinal, o que aconteceu nessa simples passagem?

***

A adolescência traz consigo um luto da infância. A vontade de potência, de dar forma a outro lugar no mundo, pede passagem ao mesmo tempo em que se percebe a perda de alguma coisa.

A meninada estava explorando os limites: muito contato físico, muita piada boba, muita gritaria. Além do papel educativo, natural de um professor, veio a percepção de que a turma, sem se dar conta, estava querendo saber se ainda tinha alguém ali, alguma instância que fosse capaz de contê-los.

Digo: sentir-se mais velho, potente e livre para fazer o que quiser pode ser muito bom; no entanto pode vir acompanhado, ao mesmo tempo, de um sentimento caótico de estar à deriva, no sentido de não conseguir conduzir toda aquela energia, ímpeto, entrega.

O fantasma da despedida da infância é o fantasma mesmo da perda dos pais, das instâncias superiores que ordenaram a vida até então. É um processo que não vai acontecendo de modo linear – é confuso, dado a idas e vindas com demonstrações de maturidade convivendo ao lado de regressões estranhíssimas.

O medo da perda, o luto, o fantasma remetem justamente a essa questão: afinal, o que significa crescer, deixar a infância?

Aqueles meninos da cena, neste sentido, pareciam crianças pequenas começando a jogar futebol.

Pareciam dizer: “Tem alguém aí para dar algum limite? Para reordenar esse jogo?” – no extremo: “Para garantir que não estamos sozinhos por nós mesmos, desamparados?”

Felizmente, tinha.

Aquele abraço, saudações esportivas

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5 Comments

  1. Rafa setembro 12, 2025 at 3:37 pm - Reply

    Excelente texto, Mestre!

  2. Gabi setembro 12, 2025 at 3:37 pm - Reply

    adorei

  3. Jojo setembro 12, 2025 at 3:38 pm - Reply

    Rodrigo,
    Vc me emociona com cada texto, sabia?!
    Parabéns, mais uma vez, pelo trabalho incrível!
    Nos vemos domingo!
    Beijojo
    Joanna Armada

  4. Roberta setembro 12, 2025 at 3:41 pm - Reply

    Como é difícil! 🙁
    Brigada pelo texto.
    Bjs

  5. Tiago setembro 12, 2025 at 3:41 pm - Reply

    lindão o texto!

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