

Sobre crescer
A turma, meninos de 12 a 14 anos em média, estava curtindo o tempo livre, a parte inicial da aula em que não há direcionamento. É uma espécie de aquecimento em que os próprios alunos se organizam – e cabe aos professores uma atenção flutuante, intervindo diretamente apenas quando necessário.
Resolver pequenos conflitos ao alcance da idade é extremamente importante, é pedagógico e se aprende ali.
O ‘jogão’ que estavam fazendo parecia, no entanto, mais barulhento. O professor notou certo desconforto de alguns alunos. Uma agressividade acima do tom começou a surgir. O professor interveio, pediu que jogassem numa boa.
Uma, duas, três vezes. Nada. O ambiente ficou hostil e desagradável – o professor não hesitou: “Em duplas, correndo em volta da quadra”. Um imperativo.
Entre o alívio de uns, o espanto de outros (diante do incomum) e talvez a raiva de terceiros, lá foram eles. Após a corrida, uma atividade semi-diretiva, ainda não um treino propriamente dito, mas uma organização do aquecimento: “Dois grupos, cada um de um lado da quadra, reinventando um jogo de aquecimento”.
Em instantes, todo mundo envolvido, decibéis abaixo, um ambiente legal para jogar e recomeçar.
Afinal, o que aconteceu nessa simples passagem?
***
A adolescência traz consigo um luto da infância. A vontade de potência, de dar forma a outro lugar no mundo, pede passagem ao mesmo tempo em que se percebe a perda de alguma coisa.
A meninada estava explorando os limites: muito contato físico, muita piada boba, muita gritaria. Além do papel educativo, natural de um professor, veio a percepção de que a turma, sem se dar conta, estava querendo saber se ainda tinha alguém ali, alguma instância que fosse capaz de contê-los.
Digo: sentir-se mais velho, potente e livre para fazer o que quiser pode ser muito bom; no entanto pode vir acompanhado, ao mesmo tempo, de um sentimento caótico de estar à deriva, no sentido de não conseguir conduzir toda aquela energia, ímpeto, entrega.
O fantasma da despedida da infância é o fantasma mesmo da perda dos pais, das instâncias superiores que ordenaram a vida até então. É um processo que não vai acontecendo de modo linear – é confuso, dado a idas e vindas com demonstrações de maturidade convivendo ao lado de regressões estranhíssimas.
O medo da perda, o luto, o fantasma remetem justamente a essa questão: afinal, o que significa crescer, deixar a infância?
Aqueles meninos da cena, neste sentido, pareciam crianças pequenas começando a jogar futebol.
Pareciam dizer: “Tem alguém aí para dar algum limite? Para reordenar esse jogo?” – no extremo: “Para garantir que não estamos sozinhos por nós mesmos, desamparados?”
Felizmente, tinha.
Aquele abraço, saudações esportivas

Excelente texto, Mestre!
adorei
Rodrigo,
Vc me emociona com cada texto, sabia?!
Parabéns, mais uma vez, pelo trabalho incrível!
Nos vemos domingo!
Beijojo
Joanna Armada
Como é difícil! 🙁
Brigada pelo texto.
Bjs
lindão o texto!