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As águas vão rolar

Caríssimos,

A Copa do Mundo vai chegando aos finalmentes e, a partir das oitavas-de-final, é vencer ou vencer. Quem ganha segue na parada; quem perde, dá adeus à competição mais importante do planeta. Desde a última partida do escrete canarinho, no entanto, algo além da vitória e da derrota ficou no ar – e resolvemos meter o bedelho também! Com uma pitada de psicanálise, tentamos pensar: afinal, qualé a do choro da Seleção?

[David e Júlio: expressões distintas de uma mesma lógica]
A imagem escolhida para ilustrar o tema não é ao acaso: David Luiz, nosso imponente zagueiro, enche o peito e se inflama para cantar o Hino Nacional. Júlio Cesar, o goleiro outrora condenado, parece tentar represar tanta mágoa engolida – que fatalmente irá explodir, na alegria ou na tristeza. Duas maneiras diferentes de encarar o mesmo drama que se criou. O Brasil, simplesmente, não pode perder.

Gosto de lembrar que o choro é livre. Chora quem quer, ou quem pode. Choro de verdade é descarrego, é afeto que transborda, emoção incontida, redenção. O sujeito se desarma, se deixa afetar. Sem choro não há retorno, volta por cima, elaboração dos afetos pelos mecanismos psíquicos. Fora as lágrimas de crocodilo (ou o chororô), nada mais é do que emoção legítima. Ponto.
Felipão e sua equipe pegaram uma Seleção irregular, trataram de definir um time e foram campeões em 2013. Com méritos. Acertaram ao assumir as responsabilidades que uma Seleção Brasileira carrega jogando em casa. Mas, visivelmente, passaram do ponto. A carga de dramaticidade incutida na ideia de patriotismo é uma linha tênue entre se colocar como protagonista ou carregar o mundo nas costas. E são duas coisas diferentes.

Para ganhar uma partida, avançar na competição e triunfar (ou não) é preciso se aventurar ao risco. E o risco inclui a possibilidade de perder. Daí que o melhor estímulo que conheço para lidar com a competição, por este viés, é o da coragem. Mas uma coragem adulta, não um imaginário inflado no qual temos de ser sempre os melhores e não podemos perder. Endeusar as equipes européias ou desqualificá-las, por exemplo, dá no mesmo. Não se está falando de um adversário real, mas imaginário. Ninguém é tão forte ou tão fraco assim, ainda mais numa Copa do Mundo.

Logo, é muito sintomático que, no primeiro Mundial que jogamos em casa após tantas décadas ganhando títulos por outras terras, aflore de maneira tão deliberada algo que parece ter se enraizado na cultura brasileira (e não só futebolística): só o campeão tem valor. Como lidar então com a fatal incerteza, inerente ao jogo? “Se eu não ganhar, ainda assim eu sirvo?”. Daí para a incontinência lacrimal é um pulo. Identificados com um ideal (o da pátria campeã), identificam-se uns com os outros, freudianamente, como se fossem um só no momento do sangue quente. Um chora pelo outro, o outro chora pelo um. Como se diferenciar nisso aí?

Existem outros caminhos para as águas que ainda vão rolar. Nossa autoestima pode ser melhor trabalhada na confiança e na coragem. A última pressupõe enfrentar a incerteza, e ambas sustentam melhor as angústias da dúvida sobre um resultado. Certeza, não há. Quem ganha sorri, quem perde, chora. Futebol sempre foi assim. Mas acho que a Seleção precisa, como dizem os boleiros, tirar a geladeira das costas. Até o futebol vai melhorar porque, quando a gente tem muito medo de errar, aí é que erra mesmo!


Aquele abraço, saudações esportivas

This Post Has 14 Comments
  1. Valeu Biga. Nessa praia mais dos afetos e da psiquê eu só aprendo contigo. Pegando mais superficialmente a coisa, concordo plenamente contigo, o choro é livre, ora! Não bastam já tantas coisas desnecessariamente proibidas pela lei e pela moral nesse mundo, vamos também julgar o choro? Me parece bem ridículo, se me permite o trocadilho! Parabéns pelo texto!

  2. Muito bom, Rodrigo.

    Vamos torcer para o jogo deles sair, aflorar. E mandar essa responsabilidade excessiva para a "casa do cacete".

    Simples assim, né? Mas não é assim…

    Abração!

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