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Consumo e batatas fritas

Caros (as),
O texto abaixo nos aponta uma reflexão importante sobre a pressão exercida pelas grandes corporações no mundo infantil – a lógica do consumo, como sabemos, chegou de vez à infância. Não se trata no entanto, ao nosso ver, de se demonizar o consumo, nem proibir pura e simplesmente isso ou aquilo. Cada família tem seus códigos e valores, mas nos parece de extrema importância poder usufruir, negociar, conversar, barrar quando necessário – o que importa é fazer com que a criança perceba cada vez mais que existem possibilidades distintas de se posicionar diante de um imperativo para comprar, comer, usar… o que faz bem, o que faz mal, o que só pode de vez em quando, etc…Enfim, este tipo de mediação dá uma referência, tranquiliza a criança – e aponta os valores daquela família.
Como elas aprendem muito observando os adultos, (pais, professores, adultos amigos), é legítimo admitir que a maneira de uma criança, ao se posicionar diante dos apelos do consumo, dirá também da maneira apreendida em seu grupo social e/ou familiar. Uma criança ‘tirana’ (que tudo quer o tempo todo) é muito chata; outra que nada pode usufruir, por proibições em excesso, perde o bonde de seu próprio tempo! Como a vida não tem fórmula, cabe a ideia: é preciso estar perto, conversar, explicar – e se posicionar. Boa leitura!
“Contrariamente ao que em geral pensam as pessoas, a infância não é nem nunca foi um estágio imutável do desenvolvimento humano. Mais propriamente, é uma construção social e econômica atada a percepções dominantes do que constitui a ‘ordem natural’. Forças tais, como a urbanização e a industrialização, têm exercido influências significativas na natureza da infância – da mesma forma que o desenvolvimento da mídia e o tecnopoder que ela produz para aqueles financeiramente capazes de dispor dela.
Com a expressão tecnopoder estou tentando ilustrar a expansão da influência corporativa através do uso de inovação tecnológica recente. Usando o tecnopoder, corporações como o McDonald’s têm aumentado sua capacidade de maximizar o acúmulo de capital, influência social e vida cultural, e mesmo ajudar a moldar a consciência das crianças. Uma vez que a infância é uma construção cultural moldada na época contemporânea pelas forças desse tecnopoder catalisado pela mídia, a necessidade de pais, professores e membros da comunidade estudarem tal assunto é dramática. Vamos ao McDonald’s, por exemplo, e à construção da infância a partir do final do século XX.
(…) A segurança do McDonald’s proporciona abrigo, se não um refúgio utópico de um mundo contemporâneo hostil às crianças (…). Oferecendo alguma coisa melhor como refúgio, a imagem da empresa na TV, como um lugar feliz onde ‘você tem o que desejar’, é muito apelativa para as crianças. (…) É óbvio que os publicitários estão de alguma maneira fazendo bem o seu trabalho quando induzem um número fenomenal de crianças a atazanar seus pais para obter Big Macs e batatas fritas.
(…) A pessoa não tem que procurar muito para notar que o entusiasmo infantil por certos programas de TV, brinquedos e alimentos os afasta de seus pais. Explico: recorrendo a esse isolamento, as crianças o transformam numa forma de poder – elas finalmente sabem alguma coisa que o pai não sabe. (…) Questões de gosto, importância cultural e autodesenvolvimento permeiam a interação criança/adulto nas famílias. A capacidade da criança de negociar as restrições dos valores adultos é central para o desenvolvimento de um self independente. Um aspecto muito comum desse desenvolvimento envolve a experiência da contradição com o mundo adulto.
(…) Uma cultura infantil dissimulada sempre existiu nos playgrounds e nas escolas. A cultura infantil do passado, no entanto, foi produzida por crianças e propagada pelo contato criança-criança. Hoje, a cultura infantil pós-moderna é criada por adultos e disseminada através das mídias com o propósito de induzir a criança a consumir.”
[Adaptado de ‘Mcdonald’s, poder e crianças: Ronald McDonald faz tudo por você‘, de Joe L. Kincheloe. In: ‘Cultura Infantil – A construção corporativa da infãncia’, 2004.]
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