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Destronados

O menino, bom de bola, viu que a vaca estava indo para o brejo. Ainda restava bom tempo de partida – num pequeno campeonato que fazemos dentro das próprias turmas, na tentativa de (re) começar a experiência do frio na barriga competitivo – mas ele já dava sinais de fragilidade.

Começava a reclamar excessivamente dos colegas, abria os braços, gesticulava, jogava como que prevendo e aceitando a derrota. Quase desejando-a, àquela altura. Ainda havia bom tempo de jogo, insisto. Para quem via de fora, o placar não era tão desfavorável assim, nem a partida. Para o amigo da história, dentro da quadra, no entanto, a derrota era certa. Mas por quê?

A boa é a disputa!!

Um dos ensinamentos que mais me impacta no futebol é aquela velha ideia de que jogar é um risco. Para vencer, é preciso arriscar-se. Diante das angústias da vida, isso não é da boca pra fora, mas uma carta que procuro ter na manga. As invenções culturais da humanidade servem para dar sentido às coisas do mundo, às nossas ações, dilemas. Noutro dia fui à linda exposição “O Rio do Samba”, no MAR – e no desfile de frases com as quais éramos brindados, havia uma que comparava o samba a um estilo de vida, por todo o seu significado cultural. Pois, ali, lembrei-me do futebol. Quem vive suas paixões também pode inspirar-se nele para viver.

Voltando ao craque da história, o que seria capaz de levá-lo a tamanho abatimento diante de uma dificudade momentânea? Por que não tentar reagir, convocar os companheiros positivamente, reunir forças e tentar melhor sorte, ver no que dá? Tenho um palpite.

Muitas vezes criamos exigências irreais para nós mesmos. Se temos algum sucesso numa atividade, isso vira prato cheio para nossa onipotência. Mas, quando a realidade se mostra duramente adversa, como descer desse trono?

O menino habilidoso, esperto e gente fina, que num par de segundos tornou-se abatido e reclamão, não sabia o que fazer quando foi destronado pelas bolas que estufavam as redes de seu time. O nível de exigência com que ele joga, se por um lado empurra-o para bons desempenhos, por outro faz com que sua queda vire um abismo quando as coisas dão errado. Exigir de si mesmo faz a gente andar, mas quando se torna uma distorção da realidade a pessoa costuma sofrer bastante. Um time de futsal tem cinco jogadores, mas no imaginário inflado do amigo só existia um.

Assim, como confiar nos colegas de time? Como pedir a ajuda deles, se encara qualquer resultado como uma função única e exclusivamente do próprio desempenho? Fica pesado. (Preciso dizer, além disso, que é muito comum crianças carregarem este peso excessivo por conta de algum afeto e/ou discurso no meio familiar, dito ou não dito, mas que fica no ar e é tomado como verdade, como imperativo.)

Acredito que o craque mirim  toma a derrota como certa, neste tipo de situação, justamente pelo medo de cair de seu trono. Ele ainda não entendeu que todos caímos. Para defender-se da acusação, imposta por ele mesmo, de que não é tudo aquilo o que deveria ser, acusa o golpe, acusa os amigos, choraminga, faz de tudo – mas não se arrisca a reagir.

Afinal, reagir seria se expor ao risco de tentar e… não conseguir. Assim, perde logo de uma vez, entrega os pontos – mas cai culpando os outros para aliviar a si próprio. Quantos adultos, quantos jogadores profissionais, não conhecemos assim?

A boa notícia é que ele tem tempo. Vamos passar uma conversa honesta, um abraço camarada. As metáforas surradas do futebol caem muito bem aqui – a hora de aprender é essa. Na semana passada, quando seu time estava vencendo, o cagaço ficava do outro lado. A meninada está aprendendo a, humildemente, se arriscar e ralar a bunda no chão. Chupa essa manga.

No futebol, até onde eu sei, Rei só tem um. E dizem que nunca corria da raia.

Aquele abraço, saudações esportivas

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