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Liberdade?

Caríssimos (as),

Durante uma aula, recentemente, ocorreu uma cena interessante. O aluno, com cerca de seis ou sete anos, relutava em ir para o gol no momento da partida de futebol. Três de seus colegas de time já haviam ficado na posição, restando apenas mais dois para cumprir o revezamento – ele próprio e mais um. Como nenhum gostava de ser goleiro, o segundo propôs a saída pelo acaso para decidir quem iria antes: bastava tirar par ou ímpar. O fulaninho continuava recusando, não queria saber da sorte. O professor observava, ajustando as contas com o relógio e esticando o tempo para que, no encontro da subjetividade de um e de outro, pudesse emergir uma solução.

Que não surgiu. O jogo precisava recomeçar, aquilo já estava por demais arrastado. Só restou a intervenção adulta: “Então, qual dos dois vai para o gol agora?”, perguntei. Fulaninho não hesitou: “Ele”, e apontou para o colega. Que fez cara feia, claro. O professor, que a tudo acompanhava desde o início, contornou as fronteiras da paciência (bem como os demais jogadores) e fez uma última tentativa, digamos, democrática: “Não acha melhor tirar par ou ímpar?”. “Não”, o menino respondeu, para em seguida completar: “Professor, por que então você não escolhe quem vai pro gol?” E fez cara de bom malandro, sorriso no canto da boca, certo de que tinha encontrado uma solução que o agradasse.
O professor não se fez de rogado: “Pois então, pode ir”. Fulaninho ficou incrédulo: “Eeeeu??”. “Sim, pode ir. Não me pediu para decidir? Pois então, está decidido. Por favor, a turma quer jogar, vamos com isso!” E lá se foi ele, emburrado e desapontado, para o gol. Oh céus, um professor carrasco! Logo depois estava se divertindo durante o jogo e, passado um tempo, o amigo da história foi lá assumir o posto. Que retirar desta comum história infantil?
Crianças e adolescentes, como nós adultos, costumam apreciar a liberdade. É preciso, no entanto, procurar compreender o quê exatamente pode ser chamado assim no processo de formação da personalidade. Ao longo dos séculos, notadamente no Ocidente, a liberdade de escolha tem se afigurado como um valor supremo o qual as pessoas lutam para se apropriar. Mas as crianças estão aptas a escolherem  tudo por si só? É disso que se trata ser livre na infância?

Creio que não, e me pareceu interessante utilizar essa historinha como exemplo. Vejamos: o menino da passagem acima tentava, a todo custo em seu imaginário, controlar o curso dos acontecimentos afim de preservar sua posição. Como um reizinho, evitava mostrar-se igual aos demais, que se submetiam à realidade compartilhada. “Eu não”, ele parecia dizer. Por que será que não conseguia escolher algo aparentemente simples, decidir o momento de colaborar com os colegas – dado que nenhuma ordem havia sido colocada de antemão?

Porque julgou, em sua onipotência infantil, que a ausência da ordem do adulto naquela situação significava ausência de Lei dentro do grupo. Com L maiúsculo. Os outros colegas, com a Lei mais sedimentada, internalizada a partir de experiências anteriores (familiares e sociais), ao contrário, se mostraram mais maduros para usufruir da liberdade – que só é digna deste nome se responder a algum imperativo moral. No caso acima: todos precisam colaborar como goleiro, já que ninguém o faria por aptidão pessoal.

De tal maneira que ele realmente precisou do professor para quebrar com sua onipotência que, àquela altura, já estava ficando muito pesada. Foi fundamental apresentar  aquilo a que atualmente temos chamado de limites – e isso se configurou um verdadeiro alívio. O alívio em ter que escolher e arcar com suas decisões, por si só. Como não gostava de ir para o gol, estava impossível escolher o momento de ir e ‘perder’ uma parte do jogo na linha. Aquilo não era liberdade para o fulaninho, mas sim uma situação caótica. Percebam que ele próprio pediu este limite mesmo que, até o último segundo, buscasse evitá-lo ao manobrar suas posições. Só pôde realizar este movimento com a minha ajuda. Precisou do imperativo: “Vá para o gol agora”. Isso retirou dele a responsabilidade da escolha, pois eu a assumi.

Não há nada de novo aqui. O que desejo chamar a atenção é para a necessidade da presença do adulto. Muitas vezes, no intuito de viver e deixar viver, podemos produzir uma sensação de abandono, de caos ou de uma angústia muito grande para a criança, acreditando que estamos proporcionando liberdade. Mas usufruir desta é uma conquista infantil que se faz aos poucos, e é sempre relativa. Somente com uma fina percepção se vai podendo tatear para aquilo que o sujeito em formação está apto – ou não. Cabem aí os desacertos da vida.

Mas eles precisam saber que podem contar conosco, que alguém está lá para sua garantia, mesmo que para isso tenham de chamar a atenção com sinais invertidos. Sem leis internalizadas não há liberdade, mas confusão. E quem ajuda a construir a Lei, na formação do sujeito, é o adulto e suas representações sociais (família, escola, instituições). Regras de convivência, princípios morais claros, simples e ao alcance da compreensão infantil. A criança precisa responder a alguém ou a alguma coisa. Quando tudo isso vai amadurecendo, ela pode avançar em suas escolhas de maneira mais tranquila e menos defendida. É como o próprio jogo de futebol: o que garante a liberdade do improviso, dos movimentos e do devaneio são as regras do jogo. É um paradoxo que precisa ser sustentado.

Cara feia de criança, passa. E faz bem.

Aquele abraço, saudações esportivas

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