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Menos

Numa atividade recente, online, na qual convidamos a meninada para assistir juntos a um jogão da Champions League e bater um papo na telinha – a famosa ‘resenha’ – nos deparamos com a seguinte situação: eles não se satisfaziam em ver um jogo, e sim dois. Ao mesmo tempo.

Um passava na televisão, tradicional; o outro era transmitido pelo facebook. Nada disso foi combinado, apenas o movimento natural dessa geração, como dizem, ‘multi-task’.

Com o passar dos minutos percebi um desconforto em mim mesmo, que pouco depois fui saber era compartilhado pelo pessoal do século XX – os outros professores. Quando entendemos o que se passava, fizemos piada no chat com a meninada: “E aí, como está jogando o time tal? Como se movimenta o lateral do time tal?”.

Como resposta, algumas frases prontas, umas bobagens ou até mesmo o silêncio. Fazia sentido.

Ver dois jogos de futebol ao mesmo tempo, evidentemente, é a mesma coisa que não ver nenhum. Essa hipótese nem passava pela minha cabeça, mas foi bastante natural para o pessoal que estava na resenha. Até que, provocados a aprofundar pequenas análises táticas ao alcance da idade, foram confrontados pelo próprio espelho – viam, mas não enxergavam.

Pudemos oferecer esse retorno, parecem ter gostado. Após finalizar, fiquei pensando na quantidade de demandas a que, não só eles, mas nós, temos sido obrigados a responder, e como nos habituamos a isso até em momentos de lazer, ou de possível descontração.

A capacidade de entregar-se a uma atividade;  fruir do tempo; esperar por um grande momento (um clímax, um gol) fica precária se não pudermos perder alguma coisa, perder o entorno ou as outras coisas, para nos dedicarmos de corpo e alma a um desejo específico. No caso, ver, realmente assistir a uma boa partida de futebol com seus altos e baixos.

Essa possibilidade em perder, no entanto, fica prejudicada se tudo parece muito importante. Lembrei da quantidade de crianças diagnosticadas com transtornos, com ‘déficits’ de atenção, com queixas de familiares e professores de que não se concentram. Ou mesmo as que não convivem com o peso de um diagnóstico.

Eleger as coisas e atividades realmente importantes costuma acalmar as crianças e assegurá-las de suas possibilidades, bem como do entendimento pessoal de suas virtudes e dificuldades. A ansiedade e dificuldade para direcionar a atenção sugere, para além de questões subjetivas, um mal-estar do tempo atual – que as próprias crianças e adolescentes denunciam com este tipo de sintoma.

Pensando, além de tudo, no drama da pandemia que ora vivemos, faria bem abandonar uns excessos pelo caminho.

Aquele abraço, saudações esportivas

 

This Post Has 7 Comments

  1. Uau, Rodrigo.
    Fico muito feliz em saber que uma “simples” turma de futebol tem reflexões como essa para embasar o trabalho desenvolvido.
    Me surpreendeu positivamente e vamos combinar que isso não tem sido facil nos dias tão difíceis em que vivemos.
    Parabéns.
    um abraço,
    Joanna Armada

  2. Ótima reflexão, Rodrigo!
    A resistência à essas (e outras) armadilhas travestidas de liberdade é fundamental pra nossa saúde física e mental.
    Golaço!

    Forte abraço.

  3. Eu tive o prazer de ver meu filho jogando e aprendendo com o Rodrigo e sua equipe
    Meu filho se sentia muito feliz quando estava no treino. E o principal disso tudo que as crianças não desenvolve só o futebol mas também com a parte psicológica. Porque além de ensinar o futebol, o Rodrigo conversava bastante e isso deixa as crianças à vontade e tranqüilas, jogando e fazendo amizades com seus parceiros e também com os adversários, sabendo que o futebol é um esporte e que devemos lutar pra vencer mas sempre com lealdade. Parabéns Rodrigo por esse super projeto Chutebol.

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