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O corpo e a bola

Prezados (as),
Costumo brincar com outros professores que uma escolinha de futebol é uma ínfima parte do cotidiano da criança. Logo, é uma ínfima parte ainda menor na fila de preocupações e afazeres dos pais. Logo, não tem o menor cabimento o professor se colocar de maneira pernóstica, empolada, para falar de algo relativamente simples: crianças brincando de jogar bola. Isso é uma coisa.
Por outro lado, aqueles que trabalham nesta ínfima parte deste grande cotidiano infantil só conseguem efetivamente interferir, de maneira positiva na educação do aluno, se forem capazes de perceber a riqueza contida em seu pequeno universo. Minha sensação é a de colocar uma lupa para, como um especialista, tentar enxergar aquilo que os outros não veem – porque realmente não lhes cabe, por conta de tudo o que foi dito acima. Quando conseguimos fazer isso, o mundo do futebol infanto-juvenil ganha complexidade, profundidade e beleza e, de alguma maneira, damos a nossa contribuição para educar. Isso é outra coisa.

E por que todo esse papo? Porque me parece importante ajudar a situar os papais e mamães que, prenhes de afeto e na melhor das boas vontades, levam o(s) rebento(s) para jogar futebol sob os cuidados de um outro alguém. 
Desnecessário dizer que, duas ou três décadas atrás, as escolinhas de futebol/futsal eram algo como um luxo, um ‘a mais’ pra galera que gostava de bater uma bolinha. O esporte simplesmente se jogava nas ruas, nas praias e nos campos de pelada espalhados pela cidade. Igualmente desnecessário é lembrar os motivos pelos quais aquela maneira de vivenciar o esporte praticamente desapareceu – questões de rotina, de tempo, de ideias de progresso de uma cidade, de violência nas ruas, enfim, assuntos que vez por outra lembramos por aqui. Não é este o ponto que pretendo trazer agora. Mas o fato é que hoje se joga futebol por pouco tempo e com hora marcada. Normalmente, no clube.
O ponto é que, dado que a molecada do século XXI tem um espaço-tempo muito, muito reduzido para mexer o esqueleto (por conta de sua agenda cronometrada), uma grande parte do que era considerado, digamos, natural no desenvolvimento da criança precisa agora ser ensinado. Calma. Não estou dizendo nostalgicamente que era melhor na minha meninice. Ou na do meu pai. Mas que cada época carrega consigo seus acertos e desacertos e, se atualmente a capacidade cognitiva da garotada impressiona aos mais velhos, por outro lado suas valências físicas e habilidades motoras e sociais nos chegam, inúmeras vezes, demasiado frágeis. Explico.
Os movimentos naturais como correr, saltar e rolar, quando o sujeito dispõe de tempo, espaço e motivação para isso no seu dia a dia, são desenvolvidos com destreza no simples ato de brincar livremente com amigos. Brincar é fazer, como lembrava um grande psicanalista inglês. Fazer envolve (não só, mas também) ações motoras amplas. No caso do brincar com amigos, some-se a isso as relações psicossociais necessárias para que a brincadeira seja divertida. Olha como o ‘simples’ brincar vai encorpando a vida do rapaz.
Pois bem, se hoje em dia os movimentos naturais têm hora marcada (ando ouvindo queixas de pracinhas vazias e pais saudosos), nada mais natural – perdoem o cacoete – de que tais movimentos tenham perdido sua naturalidade. Claro, as crianças continuam sabendo correr, saltar e rolar. Está no DNA. Mas, de verdade, com uma precariedade que não se via. Tudo isso pra lembrar, voltando ao papo lá de cima, que uma boa escolinha de futebol se ocupa do desenvolvimento psicomotor e social do aluno. De verdade, com planejamento. Então não basta somente rolar a bola; ou distribuir medalhinhas de ‘honra ao mérito‘; ou cair na esparrela do ‘aqui não é lugar de brincadeira’. Tem de ser, sim. A brincadeira não só deve preceder como conviver em harmonia com a competição. Se não ali, aonde mais??
De tal maneira que é necessário dispôr, na metodologia eleita, de um espaço-tempo garantido para a liberdade de movimentos; para as brincadeiras livres e dirigidas; para as coordenações que não sejam somente pé-e-bola. Pois tudo isso é, de fato, a base para que, posteriormente, a técnica e a tática próprias do desporto entrem em cena – com o suporte de um corpo forte, mais confiante e mais plástico. Um corpo mais alegre também, permeável a novas aprendizagens. Sem isso, muitas vezes estas configuram sofrimento. Daí perde o sentido para o aluno e pode virar um pequeno grande transtorno para a família. Ouvir de uma mãe que “O Fulaninho não quer mais jogar futebol. Diz que é muito ruim“, é das coisas que mais sensibilizam um professor empenhado. Fulaninho com a autoestima lá no pé (perdoem de novo), coitado.

O corpo humano não é um pedaço de carne habitado por uma inteligência etérea. Ele tem memória, inteligência e carrega marcas afetivas – boas e ruins. Acolher um aluno significa também perceber como este se apresenta em sua expressividade corporal: aquela que não é dita e, muitas vezes, não chega batendo na bola com categoria. Este mesmo corpo precisa ganhar tônus muscular, ritmo, coordenação e uma leveza para conseguir assimilar as aprendizagens desportivas mais pesadas. O esporte – qualquer esporte -, sem estes ingredientes, pode virar um pesadelo. É mais jogo fazer dele fonte de prazer e alegria. 

Enfim, como eu estava dizendo: é só uma turminha de futebol. É só isso. E é tudo isso.
Aquele abraço, saudações esportivas
This Post Has 14 Comments
  1. Quero agradecer por estes quatro anos em que Caio aprendeu tanto. Você sempre fez um ótimo trabalho e o resultado será pelo resto da vida do Caio. Por favor, mande um agradecimento e um abraço também para o Tiago.
    Grande abraço, Geraldo.

  2. Muito bom texto, Rodrigo!
    Uma surpresa, e que excelente surpresa!
    É que é muito bom saber que seu trabalho é feito com esse olhar, que pensa juntos o corpo, a psique, o afeto, o mundo de hoje…
    Parabéns, obrigada e conte com a parceria dessa familinha aqui.
    Abraços,
    Ana

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