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Crianças e Professores 2023

Causou surpresa a gana com que o menino ia na bola.

Digo, já era observável seu maior envolvimento com o jogo recentemente, ele que havia chegado há certo tempo na turma e, durante bom tempo, comportou-se de maneira mais tímida. Por vezes alheio ao jogo, como fazem muitas crianças que ainda sentem alguma insegurança.

À medida que a partida andava, no entanto, as disputas do pequeno jogador foram ficando mais ríspidas, até que uma falta sem bola fez soar o alarme. Ele foi advertido, olhou assustado.

O jogo seguiu, mais uma falta feia: cartão amarelo, desses oficiais que o professor guarda para momentos necessários. O olhar dele, um misto de surpresa como se ainda não estivesse satisfeito.

Acertou então um adversário por trás: cartão azul (pedagógico, que precede o vermelho da expulsão): “Fulano, depois dessa sequência eu realmente preciso retirar você da partida. São dois minutos fora”.

Olhos marejados, fomos beber água e conversar. Pudemos retomar, pela fala, toda a sequência até aquele momento; a necessidade de cuidado (consigo e com os colegas); mas, por fim, uma nota necessária: a de que ele estava, efetivamente se importando com o jogo, participando da partida e tentando mostrar sua força – e isso era muito bom.

Apenas, procurei ressaltar, essa força deve ser demonstrada de outra maneira.

Passados os dois minutos, retornou ao jogo, buscando participar sem cometer faltas. Por prudência, encerramos a partida antes que a situação ultrapassasse sua capacidade de elaborar aquilo tudo. Já estava de bom tamanho.

*

A agressividade é um impulso que empurra a criança ao mundo. Quero dizer com isso que o impulso agressivo, em suas origens, não pode ser confundido com violência. É justamente o adulto e suas representações sociais (família, escola, leis) que apontam os limites da força agressiva, presente em todos nós.

Colocar-se num grupo, fazer parte de um time, pedir a palavra, um passe, uma bola; correr atrás, pegar, alcançar, chutar e fazer gol são conquistas infantis nas quais o impulso agressivo está presente, e é bom que assim seja.

Quando, ao contrário, o contato com a própria agressividade está impedido (seja por medo, repressão excessiva, defesa contra algum perigo imaginário ou real), o mais comum é a criança apresentar-se alheia, apática, talvez permissiva.

Assim, no caso acima relatado, acompanhar o jogador mirim em seu contato renovado (ou inédito) com a própria agressividade passou pela percepção de que algo novo estava em curso. Um menino normalmente introvertido estava se apossando de uma força ainda estranha para ele.

Reprimir aquilo às cegas, muito provavelmente, teria efeito desolador no desenvolvimento em curso, sendo capaz até de apartar o rapazinho de sua própria agressividade recém descoberta.

Um cartão vermelho, uma bronca forte na tentativa de restabelecer alguma ordem poderia ser aceitável para um espectador desavisado.

A tarefa pedagógica, no entanto, é buscar a percepção do grupo sem abandonar o indivíduo.

E é nesse fino ajuste que ocorre o encontro entre professores e crianças.

Aquele abraço, saudações esportivas

This Post Has 6 Comments

  1. Encantador, palavra que me chega intuitivamente e que de imediato me faz trazer à memória a figura do encantador de serpentes que tive a oportunidade de ver no Egito, trata-se de um processo delicado, que faz o animal surgir de dentro da cesta, e ao invés de mostrar sua agressividade, vai aos poucos, ao som da flauta, mostrando seu encantamento e beleza sutil.

    Assim age o bom educador e, justamente, é o que nos mostra seu relato, você vê além, transcende, encanta, transforma e deixa surgir a harmonia e a atitude criativa. Você sabe que sempre o admirei e este relato reafirma o que sinto.

  2. Rodrigo,
    Quando uniu a psicanálise ao futebol, você fez um gol de craque. Parabéns pelo cuidado e sensibilidade com que trata questões tão delicadas. Sorte dessa e de outras crianças tê-lo como professor!!
    Bj verde
    Tia

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