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Fora do tom

Tem sido razoavelmente comum, a ponto de valer uma nota, o nível de competitividade excessivo com que muitos meninos têm se apresentado em simples partidas de futebol no decorrer das aulas. Em especial, tal fato tem se expressado com muitas reclamações, em decibéis fora do tom.

Existe, naturalmente, a compreensão da expectativa pela vitória; o desejo de se impor; o sangue quente da disputa. Tudo isso é saudável e pode gerar aprendizagens positivas. Me refiro, no entanto, ao excesso que corre o risco de virar norma até mesmo em escolas e escolinhas – no futebol infanto-juvenil brasileiro, de alto rendimento, já é o modus operandi há décadas, infelizmente

Lembrei-me, não à toa, da americana Simone Biles e sua desistência das finais de Ginástica, nas recentes Olimpíadas de Tóquio. Não pretendo requentar um assunto, mas apontar aonde começa o estresse competitivo que extrapola limites e prejudica a saúde mental. E pode começar no cotidiano.

O futebol, como qualquer outro esporte, deve começar pelo viés da brincadeira, do simples jogo de bola, se pretende efetivamente alicerçar as aprendizagens desportivas em aspectos como uma boa socialização e o gosto pela atividade física. Tais são os pilares para uma boa saúde física, mental e social: fazer amigos, saber resolver conflitos (consigo e com os outros), movimentar o esqueleto prevenindo o sedentarismo. Simples assim.

Ocorre que, para obter respeito e quiçá admiração pelo próprio trabalho, um sem número de clubes e escolinhas passou a exigir de crianças o compromisso inequívoco com a vitória e o gesto motor idealizado – e, pior, outro sem número de famílias passou a comprar esse falso ideal de sucesso, notadamente transportando o modelo de clubes profissionais para o que deveria ser brincadeira de criança.

Como resultado, temos observado crianças e adolescentes que, submetidos a tais condições, abandonam a prática esportiva precocemente. Sentem-se incapazes, ruins de bola ou, simplesmente, rejeitam o ambiente naquelas condições. Não retiram daí nenhum ganho: nem a possibilidade de ser atleta, muitos menos o gosto pela prática e pela manutenção da saúde.

Quero dizer com tudo isso que o esporte, como promotor da saúde e da socialização, não é algo dado. Há um trabalho a ser feito, com caminhos escolhidos, outros abandonados, práticas priorizadas e uma metodologia que busque determinados resultados. Assim, é muito diferente o percurso de um atleta olímpico e da maioria da população.

Mas, da mesma maneira que uma atleta da magnitude de Simone Biles pode denunciar, justamente, que sua saúde não vai bem numa final olímpica, é preciso poder escutar os decibéis de uma turma infantil que se mostra demasiado aflita, preocupada com o resultado e com uma cobrança inalcançável.

A qual ideal eles já estão buscando corresponder? O que acreditam que precisam mostrar? Como veem a si mesmos em caso de derrota? É trabalho do professor, mas de seu entorno também.

Aqueles meninos lá de cima, do início do texto, estão tentando nos dizer alguma coisa – e é preciso escutá-los.

Fiquemos atentos.

Aquele abraço, saudações esportivas

This Post Has 7 Comments

  1. Muito pontual o seu texto, Rodrigo, adorei. Cabe realmente averiguar por que tamanha cobrança. Parabéns, reflexão que precisa ser compartilhada!!
    Bjs
    Tia

  2. Muito bom, Rodrigo!
    Lendo reflexões suas assim me asseguro que foi mais do que acertada nossa decisão de colocar o Tales na escolinha do Chutebol. Educação dá trabalho mesmo, alguns dizem que é como enxugar gelo, o que eu discordo. Mas os resultados muitas vezes são sentidos, não necessariamente vistos, mais tarde…
    Parabéns pelo excelente trabalho de toda a equipe do Chutebol.
    Resultado mesmo eu cobro do Flamengo!rs
    Forte abraço,
    Luís.

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